Textos Premiados

1° Lugar – Camila Cason Narciso

Escola Novo Anglo

O FIM E O COMEÇO


Fazia muito calor na nossa cidadezinha natal, quando passei pela porta do apartamento da minha mãe e logo senti o frescor vindo do ar condicionado.

Cumprimentei alguns dos parentes presentes na sala e assim feito logo me sentei à espera da anfitriã que ainda estava terminando de ser arrumada. Passaram alguns minutos e ela logo apareceu, apenas de fralda e uma regata cobrindo a parte superior de seu corpo, caminhando com a ajuda das minhas tias, já que por si só mal sabia andar.

Sentaram-na de um dos lados da mesa, e contida em sua felicidade não tirou nem por um segundo os olhos de todas aquelas comidas que a esperavam. Eu, do outro lado da mesa, estendi meus braços entregando-lhe o presente, que foi pego com dificuldade e como agradecimento apenas um sorriso, nenhuma palavra, já que por agora só balbuciava algumas coisas impossíveis de se entender.

Todos já estavam reunidos à mesa, comiam e conversavam, e ela com ajuda de um e de outro também aproveitava as regalias ali dispostas por causa de seu dia. Grande dia.

Era hora do parabéns, acenderam as velas em cima do bolo, e em uníssono todos começaram a cantar aquela música tão conhecida. Ela apenas acompanhava, olhando para a chama, sorrindo, batendo palma animadamente com suas mãos frágeis.

Cortaram o bolo para ela, ela não conseguiria fazer. Distribuíram os pedaços, o primeiro foi para a própria aniversariante, que comeu com ajuda da mamãe, que calmamente dava para ela de garfada em garfada, e mesmo assim ela se sujava toda.

Quando já era tarde, a anfitriã dormia em algum dos quartos, e na sala só sobraram uns dois tios que conversavam sobre futebol com metade da cerveja na mão. Eu ajudava a recolher e limpar a mesa. Peguei aquela coisa arroxeada de cima da toalha ainda estendida. Eram as velas. Na mão esquerda encontrava-se o número nove, e na direita o oito. Vovó fazia 98 anos.

Semana passada eu havia ido ao aniversário da minha sobrinha, do qual me lembrei a tarde inteira, pois vovó tinha as mesmas necessidades e precisava de tanta ajuda quanto ela. Minha sobrinha comemorava seu primeiro ano de vida. Vovó comemorava o último.

1° Lugar – Marcia Leide Feliciano

Escola Estadual Prof. Israel Schoba

A ESCOLHA


– Sabe Jungkook, – Suspiro pesadamente, deitando minhas costas pela fina grama macia. – Eu estou tão cansado de tudo isso. – Fecho meus olhos respirando fadigadamente, sentindo a brisa fria passar por meu corpo, levando arrepios bons pela minha pele.

O silêncio se instala pelo vasto lugar. Podemos apenas escutar o soprar do vento pelas folhas verdes, e o cantar baixo dos pássaros distantes, dias de outono são os mais agradáveis.

Jungkook bufa ao meu lado, abro os olhos e vejo os seus presos no horizonte azul do céu logo a frente. Sua cabeça parece estar pensando em milhões de coisas ao mesmo tempo, e eu prefiro não atrapalhar seu silêncio, que no momento parece ser precioso demais para se quebrar. Então apenas fecho meus olhos novamente, tentando não pensar muito em como Jungkook era bonito, e em como seu maxilar trancado, e em seus fios castanhos escuros balançando levemente pelo vento, eram coisas que o deixavam ainda mais encantador.

– Você aceitaria fugir comigo?

Levanto em um pulo, me sentando novamente. Arregalo os olhos e encaro suas orbes castanhas, que ainda estavam focadas no horizonte a frente. Ele estava falando sério?

– Você tá falando sério? – Faço a mesma pergunta que fiz a mim mesmo.

O silêncio continua nos envolvendo. Ou apenas o envolvendo, porque no momento aquele silêncio duvidoso parecia apenas me sufocar. Para onde nós fugiríamos? Como iríamos embora sem deixar pistas? Perguntas e mais perguntas rodavam em minha mente, e a única resposta que eu tinha era o seu silêncio agonizante.

Um suspiro deixa seus lábios, e seus olhos deixam o horizonte, e tenho toda sua atenção voltada a mim. E eu gostava dessa sensação, eu amava essa sensação.

– Eu não sei na verdade. – Uma pausa, quase que dramática corrói meu interior e eu estou quase surtando com isso. – Eu queria apenas fugir. Sem rumo, sem destino. Apenas eu e você.

Apenas eu e você.

Eu e você

Você e eu.

O ar dos meus pulmões parece brigar para poderem sair por minha garganta, como um grito de alegria. Mas eu apenas fecho meus olhos, e respiro fundo, tentando acalmá-los, e apartar a luta que está dentro do meu estômago. Abro meus olhos, olhando em volta e me perguntando se isso era real mesmo.

Eu finalmente tinha em minhas mãos o poder de ir embora, e deixar tudo aquilo que me fazia mal para trás. Um novo começo, algo que sempre almejei. Mas a dúvida estava me preenchendo, e a incerteza tomava o lugar das promessas que fiz de ir embora e deixar tudo para trás. Tinha quase nada a perder, e muito o que aprender, talvez isso me fizesse bem, como se eu pudesse finalmente ver o mundo ao meu redor. Jungkook aguardava minha luta interna silenciosamente, assim como esteve desde o começo, e eu sei que assim como eu, ele tem suas inseguranças de deixar tudo para trás. Todos desejam abandonar tudo, mas assim que tem o poder de tal, se sentem inseguros se isso é ou não a escolha certa. E eu não estava diferente.

Fecho meus olhos novamente, pensando nos prós e contras, e antes que eu possa me arrepender de minhas escolhas, meus lábios se abrem, mas meus olhos continuam fechados. E com um fio de linha de voz, quase como um sussurro, eu fiz a escolha que iria mudar o meu futuro, que ainda era inexistente.

– Eu aceito.

Finalista – Giovanni Bonincontro


TESTEMUNHAS

Finalista – Isadora Morandi Mathias

BULLYING